Do Punk ao Tribunal da Internet: O Desabafo de Olivia Rodrigo e a Hipocrisia por Trás da Crítica de Moda

Atacada por usar vestidos estilo “babydoll” no palco, a cantora rebate críticas e expõe o duplo padrão da cultura pop.

Olivia Rodrigo – show em Barcelona

A imagem correu as redes sociais em minutos: no palco do Spotify Billions Club, em Barcelona, Olivia Rodrigo cantava um de seus hits vestindo um vestido curto branco, no estilo babydoll (aqueles modelos soltos, com mangas bufantes), combinado com shorts bufantes curtos por de baixo e coturnos pesados. O que parecia apenas mais um figurino de turnê virou o centro de um debate na Internet.

Críticos e usuários do TikTok acusaram a artista de 23 anos de se “infantilizar” e usar roupas que remetem a trajes de crianças. A discussão escalou para um nível alto muito rápido, saindo do campo da crítica de moda para um debate pesado sobre o que é ou não apropriado para uma mulher vestir no palco.

A resposta de Olivia não demorou e veio sem medo. Em entrevista ao podcast Popcast, do The New York Times, a cantora inverteu a lógica dos ataques e apontou o dedo para a hipocrisia do público. Olivia destacou o duplo padrão da indústria: quando se apresentava com figurinos que seguiam a cartilha tradicional do que é considerado “sexy” ( como lingeries brilhantes e corpetes) o público aceitava com naturalidade. Mas bastou cobrir o corpo com um vestido largo e romântico para ser acusada de flertar com a infantilização.

Imagem tirada do pinterest

“Ninguém deve ser responsabilizado por um homem sexualizá-la de uma forma que nunca foi sua intenção”, disparou a cantora. “A ideia de que uma mulher não pode vestir uma roupa solta sem ser acusada de atrair olhares errados mostra como realmente normalizamos a pedofilia em nossa cultura.”

O que a maioria dos críticos de internet parece desconhecer é que o visual de Olivia Rodrigo está longe de ser uma escolha inocente ou infantil. Trata-se de uma referência direta à história da moda e do rock feminista dos anos 1990.

​O figurino da cantora tem relação direta com movimento Riot Grrrl, uma vertente do punk liderada por mulheres que usavam a moda como manifesto. Ícones como Courtney Love (da banda Hole) e Kathleen Hanna (do Bikini Kill) subiam ao palco com os mesmos vestidos babydoll, muitas vezes rasgados ou manchados calçando botas pesadas.

Imagens tirada do pinterest

​A estratégia visual era clara: pegar elementos da feminilidade tradicional e dócil e misturá-los com a agressividade do punk. Era uma forma de ironizar e chocar, deixando claro que a roupa delas não existia para satisfazer o desejo ou a aprovação masculina. Ao adotar esse uniforme em 2026, Olivia Rodrigo dá continuidade a esse legado de rebeldia visual.

No fim das contas, a polêmica sobre o vestido branco de Barcelona prova que o debate nunca foi sobre a roupa em si, mas sobre quem tem o controle da narrativa. Ao usar a moda como escudo e como crítica, Olivia Rodrigo mostra que o figurino de uma mulher no palco continua sendo uma das ferramentas políticas mais potentes da música atual.

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